Random Post: Soneto de amor
RSS .92| RSS 2.0| ATOM 0.3
  • Home
  • Política de Privacidade
  •  

    Domingo de Ramos

    Domingo.
    Ontem choveu: Não têm os ramos,
    hoje, inda um brilho trêmulo e um respingo?

    Oh! que manhã!
    Vamos à missa! Vamos?
    A hora é cristã:
    Hoje é Dia de Ramos,
    domingo.

    Choveu, e eis a atmosfera mais sonora:
    e inda nas folhas sente-se um balanço.
    Mas que ar! Tão claro! Até parece agora
    que andam nele anjos… pois é um anjo a aurora,
    afianço!

    Vamos à missa.
    É linda, na colina,
    a alva igreja em caliça!
    É lá: estão vendo?
    E oiço o sino! A caminho entre a campina!
    A caminho!… Oh o sino ao longe! É uma surdina,
    plangendo!

    E ei-nos no templo! “Entrai!” -
    diz essa imagem -
    “cantai e orai!”
    E eu (certo que a Deus prezo)
    mas… fico à porta: adoro-O na paisagem.
    Fico: é sonhando ao sol, como um selvagem,
    que rezo.

    Que val! Que céu, além!

    … E as andorinhas
    vieram também!
    Cá estão em bando
    errando:
    vieram também…

    … Trinam as avezinhas
    (diling! dlém!)
    ou são as campainhas
    tocando?!

    Eram as campainhas: rezam a “Ave”.

    Como parece a nave uma floresta,
    assim cheia de folhas, verde e grave,
    banhada em sombras, a silente nave
    em festa!

    Acabou-se.
    As mulheres e as crianças
    com os homens saem em ledo sobressalto,
    e erguem as palmas – as verdinhas franças -
    e erguem – num gesto doce -
    as esperanças
    ao alto!

    E no alto, no alto é de ouro o panorama!

    O Santo-Espírito-do-Sol luzindo
    nos manda, como a apóstolos de fama,
    as línguas evangélicas da chama.

    Sol lindo.
    Nesta manhã de fantasmagoria
    -oh palmas do domingo-santo, oh palmas-
    floristes uma flor de alegoria:
    é a flor cujo perfume dá alegria
    às almas!

    Murilo Araujo, no livro “Carrilhões” (1917)

    Comments are closed.